Just girls...

É pura e simplesmente isso, o que não quer dizer que se possam abrir algumas excepções...

segunda-feira, abril 23, 2007

Textos de Eduardo Sá

"Chega-te e mim e deixa-te estar" é um livro de Eduardo Sá, composto por um conjunto de textos deliciosos que poderão ser lidos até durante a hora de almoço ou numa pausa para café. São textos para ler...pensar...reflectir...e claro está, para comentar...É impossivel ficar indiferente às reflexões que Eduardo Sá faz.....
Há medida que for lendo (pela segunda, terçeira e quarta vez) os textos, irei publicá-los nesta blog abandonado e aguardarei pelos vossos preciosos comentários....reflexões...emoções...desabafos...lágrimas...e sorrisos......Os meus estarão seguramente cá...ainda que possam estar camuflados de alguma forma...não deixarei de colocar um pouco de mim nos comentários que fizer......estes textos "mexeram" de tal forma comigo, que volta e meia pego no livro para os reler......Espero que se deliciem, que sintam o sabor de cada palavra, que se emocionem, que se revejam em algumas situações e que no final...deixem flutuar a pena e comentem!

INTRODUÇÃO

"Eu sei que nem todos os dias são manhãs de sol. E que neste equilíbrio, ora enamorado ora soturno, com a Natureza, também dentro de nós a vida ou se enche de brios ou, como um bocejo que se prolonga, fica pachorrenta e até incomoda.
Sei também que pode parecer ingratidão dizê-lo assim...mas talvez o que nos empanturre seja o lixo dos sentimentos. Tudo aquilo que fica (e, para mais, hermeticamente guardado) das relações de conveniência, do narcisismo dos outros que nos atropela, e do mau «humor corporal» daqueles que, em todos os gestos, têm no olhar uma espécie de grafitti do género: «cuidado com o cão!» Mais as poses «a puxar ao sério» daqueles que, à falta de melhor, de cada reunião - que tornam estéril e interminável - fazem um exercício de poder.
Do lixo dos sentimentos sobra a nossa fala sobre o tempo. Que à falta de coragem de mandarmos para onde «só Deus sabe» quem se chega a nós sem nos merecer, nos leva a falar das nuvens do céu, poupando esses passageiros acidentais do nosso coração a tempestuosos aguaceiros e aos nossos mais requintados ciclones.
O lixo dos sentimentos é uma espécie de película peganhenta de indiferença que entra pela «porta dos fundos» da nossa vida e nos guarda, para viver, um quartinho nas traseiras do nosso coração. Será aquilo que nos corrói de «tanto faz», de «vai-se andando», ou de «amanhã será melhor», com que a esperança, o amor de alguém, ou os sonhos (os nossos e aqueles que nos deram para que compartilhássemos) esperam por dias melhores.
Claro que há sempre quem diga que dormir sobre os assuntos é uma fantástica incineradora do lixo dos sentimentos. E quem garanta que, dessa forma, se poupam os resíduos tóxicos e até as dioxinas.
Eu, por mim (recordando aqueles simpático chimpanzé de um spot sobre lixos, que não precisava da vida toda para pôr uma casca de banana no sítio certo), defendo que, em vez de guardarmos (só para nós) aquilo que doa, não devemos deixar de depositar, devidamente acondicionado, dentro de quem nos magoa, a autentiticidade de tudo o que sentimos (mesmo que pareçam desperdícios). E defendo mais: que assumamos esta irresístível tendência de separarmos (dentro de nós) o lixo dos sentimentos, levando a que a sua reciclagem nos permita transformar tudo o que nos mói em sinais interiores de riqueza. Sim: sinais interiores de riqueza. Seja em alegria ou em assombro, em resmunguiçe, ou na irresistível tentação de gostar dos outros. Desde que tudo o que era para se deitar para o lixo se fale: com um som, com um nome, num gesto ou por um sinal (mesmo que seja simples ou fugaz). Mas ue se fale. Porque, afinal, o lixo dos sentimentos embrulha-se de um silêncio que atordoa. E mata, em combustão lenta, todos os namoros com a vida.
(...)" Eduardo Sá